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A primeira vez na antiga fonte nova

18 de setembro de 1988. Era uma tarde de domingo, véspera da primavera. Eu estava ansioso. Durante a semana, meu pai me prometeu que iria me levar pela primeira vez à um estádio de futebol. Aos 6 anos, eu estava começando a descobrir meu interesse pelo futebol. E a promessa feita era ainda mais especial: eu iria ver o poderoso Flamengo. Para quem não sabe, assistir o Flamengo dos anos 80 era como ver o Barcelona de Messi. Em apenas 8 anos, o Flamengo de Zico já tinha sido 4 vezes campeão brasileiro, campeão da libertadores e do mundial. Era uma máquina, repleta de alguns dos maiores jogadores que esse país já produziu. Além do Galinho de Quintino, como o camisa 10 era conhecido, o super time contava ainda com Júnior, Leandro, Andrade, Adílio, entre tantos outros. O domínio do Flamengo na década de 80 só é comparável ao Santos de Pelé na história do futebol Brasileiro. Aquela década foi, sem dúvidas, vermelho e preta.

Meu pai era de Ilhéus e minha mãe era de Itabuna. Para quem não sabe, são cidades próximas e conhecidas por terem muitos torcedores do Flamengo. Não era à toa: naquela época, o Flamengo costumava fazer turnês pelo Nordeste. De tanto passar pelas cidades, uma legião de torcedores se apaixonou pelo time da Gávea. Entre eles, meu pai e meu tio. Nos meus primeiros anos de vida, os dois tentaram – de todas as formas – me converter. A proposta era tentadora, diga-se de passagem. Era (e ainda é) o time mais popular do Brasil, e naquela altura, era disparado o melhor time do país. Então eu passei a semana inteira contando as horas, esperando ir ao estádio e finalmente conhecer aquele time que eu tanto ouvia falar.

Verdade seja dita, o Flamengo passava por um processo de renovação. Aquele time que ganhou tudo envelheceu e era hora de dar espaço à jovens promessas. A grande estrela do time era um baiano, muito carismático: o atacante Bebeto, que machucado, não iria jogar. Quando meu pai me disse que ele não jogaria, pensei até em desistir. Mas ele me convenceu que teriam outros jogadores muito bons. E era verdade. Faziam parte daquele time grandes craques como Aldair, Leonardo e Zinho, que futuramente seriam campeões mundiais com o Brasil na copa de 1994. O Flamengo ainda contava com Darío Pereyra, famoso zagueiro uruguaio que fez grande sucesso pelo São Paulo, já em fim de carreira.

Fomos ao estádio de ônibus. Na época, eu morava no Parque São Brás, na Federação. Me lembro do trajeto como se fosse hoje: a passagem pela Cardeal da Silva, Canela, Campo Grande, Avenida Sete, Piedade, Colégio Central, até finalmente a descida no Campo da Pólvora. Ali, eu tinha meu primeiro contato com uma torcida de futebol.

Eram milhares de pessoas! Fiquei boquiaberto e completamente retraído. Nunca tinha visto tante gente assim. E elas falavam alto, cantavam, gritavam. Achei uma completa loucura. Meu pai me mandou grudar nele e não soltar de jeito nenhum. Eu também fiquei com medo de me perder naquela multidão ensandecida. Já tinha dúvidas se tinha sido uma boa ideia ter ido. Afinal, meu pai tinha avisado que provavelmente perderíamos a sessão dominical d’Os Trapalhões, que passava na rede globo no início das noites de domingo, antes do Fantástico. Qualquer criança daquela época era fascinada por Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, os Beatles brasileiros. Mas minha dúvida foi completamente embora quando entramos no estádio.

Em pé: Leandro, Raul, Marinho, Figueiredo, Andrade e Júnior. Sentados: Tita, Adílio, Nunes, Zico e Lico. Foto: Revista Placar

Como era minha primeira vez, meu pai comprou ingressos para a cadeira inferior, que hoje chamam de oeste inferior, abaixo do Lounge. Era o único setor com cadeiras no estádio. Naquele época, era um lugar de torcida mista, coisa que não existe mais. Adentrar o setor, olhar para o gramado, ver aquela festa… provavelmente meus olhos nunca mais brilharam como naquele momento. Era tudo mágica. Naquele determinado momento, o futebol entrou de vez em minha vida. Para nunca mais sair.

De repente, muito barulho, muito grito, com direito à fogos de artifício. O nível de insanidade foi muito estranho para uma criança de 6 anos. Perguntei à meu pai o que era aquilo. O time local entrou em campo, do seu vestiário. Todo mundo cantando, em uníssono, o amor ao seu clube. Achei interessante. Saudar a entrada de 11 homens vestidos! Que loucura!

Pouco depois, muito barulho, muito grito, nenhum fogo de artifício e MUITAS vaias. Achei que alguma coisa de ruim tivesse acontecido. Discretamente, meu pai virou para mim, bem baixinho e me falou: “é o Flamengo entrando. Não faça nada”. Fiquei horrorizado com a hostilidade de tanta gente à algo que era mágico para mim. Mas porque estão vaiando o melhor time do Brasil? Óbvio que ouvi alguns palavrões pela primeira vez na vida naquele exato momento. Todos adicionados ao meu limitado repertório até então, como toda criança faz. Uma pena que esses momentos não existam mais, graças à essa baboseira criada para copiar os europeus, onde os times entram juntos.

Naquele momento, eu já tinha até esquecido a ausência de Bebeto. Assim que o juiz apitou o início do jogo, meus olhos brilhavam e não desgrudaram por um segundo do campo. Eu estava vendo o Flamengo jogar. Era algo inacreditável para uma criança. Era mágica.

Meu olhar só desviou do campo 20 minutos depois. Nesse lance:

 

A primeira vez que eu ouvi um grito de gol no estádio foi um choque. Eu me virei para o lado direito e vi uma torcida chamada Povão, fazendo uma festa. Aquela celebração me tirou o olhar do campo por uns 10 minutos. Eu estava encantado com a torcida do Bahia, que jogava contra o Flamengo naquela tarde. Meu pai percebeu e me fez a pergunta que eu estava ansiosamente aguardando, mas estava com vergonha de falar: “você quer ir para lá, filho?”

Meus olhos brilhavam pela segunda vez na tarde. Acenei com a cabeça já me levantando. Fomos para a Povão, onde acontecia um pequeno carnaval fora de época. Ali eu começava a descobrir um outro time, com outros personagens. “Que cruzamento maravilhoso do Paulo Róbson, rapaz! Corujito joga muito!”. Disse um. “Mas a cabeçada de Bobô foi genial. Foi na gaveta!”, respondeu o outro. Por um segundo, achei que ele tinha chamado o jogador de bobo, com um sotaque diferente. Depois, a torcida em uníssono começou a gritar “Bobô, Bobô, Bobô!”. Meu pai me falou que era o camisa 8 do Bahia, o grande craque do time, que fez o gol. Como toda criança de 6 anos, achei inusitado o seu nome.

Foto: Revista Placar

O primeiro tempo acabou e fomos ao bar para meu pai me comprar um refrigerante. Era viciado em Taí, um guaraná da época, que não existe mais. Eu estava agoniado para voltar à arquibancada, até que meu pai me acalmou falando que estava no intervalo, e que os jogadores descansariam por 15 minutos.

Voltamos ao segundo tempo e eu estava mais familiarizado com o time do Bahia. O goleiro era Ronaldo (o titular Cidimar estava contundido). Os dois zagueiros eram Pereira, um jogador de muita classe, e João Marcelo, que os torcedores falavam dele como “o menino da base”, que eu só fui entender anos depois. O lateral direito tinha um apelido super engraçado para mim: Edinho Jacaré! Não muito diferente do lateral esquerdo, Paulo Róbson, que era chamado de Corujito, um personagem que eu adorava do desenho She-Ra. O camisa 10 era um negro alto, magro, muito elegante. A torcida chamava carinhosamente de Zé. A única bronca dos torcedores eram com dois atacantes: um baixinho ouriço chamado Osmar e o centroavante Renato. O primeiro sofreu com a ira da torcida naquela tarde. Todos imploravam a entrada de Dico Maradona. Eu ainda perguntei – inocentemente – a meu pai se realmente Maradona jogava no Bahia. Ele riu e disse que era só um apelido porque o Dico parecia muito com o Maradona (fisicamente, vamos combinar). Eu me encantava cada vez mais com essa torcida e com esse time.

Meu pai ainda tentou. No meio do segundo tempo, me perguntou se eu queria voltar para as cadeiras, onde a torcida do Flamengo estava. A negativa foi a certeza que ele desconfiava: naquele momento, seu filho havia escolhido seu lado – e não era o lado dele. Não tinha mais volta. Para minha sorte, ele também mudou de lado, graças ao amor repentino do seu filho.

Aquele ano de 1988 foi especial. Não sei se foi sorte ou se eu realmente fui o maior pé quente da história do Esporte Clube Bahia. A memorável campanha acabou com o improvável título nacional. Durante todo o resto do ano (e no início do ano seguinte, enquanto o campeonato ainda rolava), eu enchi o saco dele para me levar à Fonte Nova. Me lembro de alguns jogos memoráveis: um 5-1 no Santos do Doutor Sócrates. num dia de semana a noite, na melhor apresentação do time naquele campeonato. O Bahia chegou às quartas de final e iria jogar contra o Sport, em Recife, 3 dias antes do meu aniversário de 7 anos. Num ato de total loucura, pedi à meu pai para irmos ao jogo. E numa loucura maior ainda, meu pai aceitou e nos metemos em um ônibus com a torcida do Bahia e pegamos 26 horas de estrada rumo à capital pernambucana.

Demos a maior sorte de ficar no mesmo hotel do Bahia. Tenho até hoje fotos e autógrafos de todos os jogadores daquele elenco, inclusive do mestre Evaristo de Macedo, técnico daquele time. Até o cantor Lui Muritiba estava no meio, não me lembro se estava fazendo algum show ou se tinha ido acompanhar o Bahia. Mais uma vez, ficamos nas cadeiras da Ilha do Retiro. Aos 6 minutos do primeiro tempo, o centroavante Nando abriu o placar para os donos da casa. Eu não tive outra opção: comecei a chorar descontroladamente. Meu pai gelou de medo, achando que seríamos expulsos do estádio – estávamos ali infiltrados, pois ele tinha medo de briga nas arquibancadas (seu medo foi justo: naquele jogo, a torcida do Sport invadiu o espaço reservado às torcidas visitantes e o pau comeu). Porém, os torcedores ao nosso lado eram pessoas simpáticas e amáveis. Um deles, inclusive me acalmou sentenciando: “Fique tranquilo porque o time de vocês é melhor que o nosso. É impossível ganhar de vocês”. Dito e certo. Aos 32 do segundo tempo, numa bela jogada do Corujito, Charles empatou o jogo. Durante o campeonato, a torcida perdeu a paciência com Renato, o contestado centroavante do jogo contra o Flamengo. Ele não aguentou e foi embora. A solução veio “da base”, novamente. Diretamente de Itapetinga, o Bahia tinha seu camisa 9. Um dos melhores centroavantes da história do clube, que inclusive chegou à seleção ainda jogando pelo Bahia.

O Bahia chegou à semi-final e eu estava lá naquela loucura que foi o jogo contra o Fluminense. 120 mil pessoas na Fonte Nova. É mais que o dobro do que o repaginado estádio padrão FIFA aguenta. Bobô fez outro gol de cabeça naquele dia – e faria novamente na final, numa jogada que se tornou sua marca registrada – e o Bahia estava na final. O resto, como vocês sabem, é história. Aquele time é uma lembrança viva em minha vida. Não me lembro de nenhum jogador que tenha vestido a camisa tricolor com tanta elegância como Paulo Rodrigues, o camisa 5 daquele time. Completamente injustiçado por Sebastião Lazaroni por ter sido preterido na Copa de 90, Paulo Rodrigues se abateu. Teve uma fase ruim. A resposta da torcida foi outro momento marcante de minha vida: em um jogo qualquer, a torcida se levantava e batia palmas a cada vez que ele tocava na bola. Depois daquele jogo, o carequinha voltou a jogar o seu fino futebol. Parecia que usava terno em campo, de tão elegante que era. E seu xará Corujito, Paulo Róbson, foi o melhor lateral esquerdo da história do clube. Me arrisco a dizer também que foi o melhor lateral esquerdo da história do futebol, sem qualquer tipo de clubismo.

Foto: Autor Desconhecido (Google)

Esses tempos mágicos de nostalgia não me ocorrem apenas pela data comemorativa dos exatos 30 anos que pisei num estádio pela primeira vez. O que me dói é saber que aquele templo sagrado não teve seu merecido cuidado, caíndo aos pedaços e levando a vida de 7 jovens torcedores do Bahia. Lembro do clarão que vi na Bamor, lá da Povão, onde eu assistia o jogo. Não pude acreditar no que ouvi, no rádio, voltando para casa. Ali eu descobria que uma parte importante de minha vida estava acabando. Culpa de um país que não sabe preservar sua memória e de políticos sem qualquer compromisso com a população. Para minha tristeza, um dos responsáveis pela tragédia foi justamente o autor do primeiro gol que vi na vida, que me fez olhar para o lado e me apaixonar por esse clube. Bobô era o diretor da SUDESB (orgão que administrava o estádio) na época da tragédia. Até hoje, ninguém foi considerado culpado. Coisas do Brasil.

Para piorar as coisas, ao invés de consertar o que estava errado, resolveram demolir. No dia 29 de agosto de 2010, todas as memórias afetivas da minha infância e adolescência viraram pó. Apesar de ser no mesmo espaço, a Arena Fonte Nova não tem nenhuma semelhança ao que um dia o estádio foi. Não tem alma, não tem arquibancada e o principal: não tem mais o povo. A torcida que me encantou, curiosamente chamada de “Povão”, uma clara referência ao maior patrimônio que o Esporte Clube Bahia tem, já não está mais lá. A copa do mundo veio para branquear os estádios, com seus petiscos gourmets e suas selfies, deixando de fora aqueles que fizeram do Bahia um gigante do futebol brasileiro.

Se eu pudesse voltar 30 anos no tempo, eu teria dito para aquele menino de 6 anos com o brilho nos olhos que ele aproveitasse mais cada momento. Não que ele não tivesse aproveitado – não tenham dúvidas que aproveitou cada segundo – mas… eu teria dito para ele aproveitar enquanto pudesse. Que um dia, infelizmente, o descaso dos homens de bem que comandam esse país teriam um final trágico para um lugar que eu sempre considerei como uma segunda casa.

Twitter: @tedsimoes

Esse texto é dedicado com muito amor à Elton Simões, que ao contrário do filho, continua comparecendo à todos os jogos do Bahia na Arena.

 

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