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Kalil é claro: Futebol não é coisa para pobre. P***, que sofrimento!

Foto: Reprodução do Facebook de Alexandre Kalil (@AlexandreKalilOficial)

Para quem ainda não conhece, Alexandre Kalil é o atual prefeito de Belo Horizonte, a sexta maior cidade Brasileira. Ex-presidente do Atlético Mineiro, é mais um dos tantos dirigentes de futebol que ingressaram a política graças ao sucesso de um time. Neste caso, um grande sucesso. Kalil assumiu o Galo após a passagem pela segunda divisão, saneando as dívidas do clube e montando bons times, que culminou na inédita conquista da Copa Libertadores, em 2013. Ganhou ainda 3 campeonatos Mineiros e uma Copa do Brasil. É amado, com toda razão, pela torcida Atleticana.

Resolveu se aventurar na política e logo de cara se candidatou à prefeito de BH. Sem qualquer experiência no mundo político (tirando o futebol, claro), adotou o jargão do momento: “eu não sou político”. A tática de grande sucesso que vem sendo usada cada vez mais no meio político. O empresário de sucesso que não precisa roubar, que não faz parte da maracutaia, que não sofre desses vícios. A melhor forma de fazer política.

Enquanto fazia sua campanha, um vídeo de Kalil viralizou na internet. Entitulado bisonhamente de “Porra, que sofrimento!”, Kalil simulava o caminho em que sua “funcionária” fazia diariamente para chegar à casa dele. Saindo às 5:30, mudando de ônibus, de estação, passando aperto, reclamando do motorista e – claro – batendo aquele papo com o povão, sofrendo junto aquela angústia diária de milhões de Brasileiros. Algo que provavelmente nunca esteve perto da sua realidade. Ao chegar no ponto da sua casa, às 7:10, Kalil reflete que foi uma jornada. Seu pé dói, seu corpo inteiro dói – mas ele tem que começar a trabalhar agora. Deu até pena dele. Porra, que sofrimento!

Para quem não é político, foi uma grande aula de política. Venceu a eleição no segundo turno com 52,98% em cima do favoritíssimo candidato João Leite, que também veio do futebol. Era goleiro justamente do Atlético-MG.

Nessa semana, Kalil voltou aos noticiários esportivos. Em entrevista ao El País, ele apenas escancarou o que todo mundo já sabe: “Futebol não é coisa para pobre”. Seco e direto. Sem chance de debate, nem de choro e vela. Tudo aconteceu porque ele vetou um projeto de lei que previa a venda de 30% da carga total dos ingressos a preços populares. Em outras palavras, Kalil apenas confirmou o processo de elitização que vem acontecendo no futebol Brasileiro. Logo ele, que popularizou a prática de cobrar ingressos a R$5 quando seu querido Atlético estava mal das pernas. “Precisamos do torcedor apoiando o time nesse momento difícil”, aquele velho discurso batido. Mas ora bolas, ele não é político!

Após o fenômeno das luxuosas Arenas e seus espaços lounges, camarotes vips e cadeirinhas coloridas, o velho torcedor de arquibancada foi educadamente convidado a se retirar. Com a falsa ilusão de que a violência era causada pelos menos favorecidos, a genial solução foi criar um ambiente pacífico, com gente rica comendo sushi e tirando selfies em seus pomposos Iphones. Enganam-se. Na mesma matéria do El País, o professor e doutor em Sociologia do Esporte Mauricio Murad é enfático:

“Excluir do espetáculo o torcedor das camadas mais pobres, que sempre esteve vinculado ao futebol, já é por si só uma forma de violência. Há a falsa ideia de que a elitização diminui a violência no futebol. Pelo contrário. Como a violência não escolhe renda ou classe social, levar para dentro do estádio um público restrito, pasteurizado, significa espalhar a maioria pelo resto da cidade. E é justamente isso que dificulta o combate a grupos violentos.”

Combater violência com mais violência. Mas o tal do Kalil não disse que não era político?

Olha Kalil, deixa eu te falar: quem sempre esteve apoiando o time nas horas difíceis é justamente esse pessoal do sofrimento que você tanto disse que quer ajudar. Aqueles que acordam muito antes que você, que pegam vários ônibus lotados, que chegam no trabalho com dor no pé, dor no corpo, dor em tudo que é lugar. Mesmo assim, na quarta à noite ou no fim de semana, eles juntavam seu dinheiro contadinho para ir ao Mineirão, à Fonte Nova, ao Maracanã ou em qualquer outro estádio para ver a maior paixão da vida deles. Não importava muito a posição que o time estava, não importava a divisão e muito menos se o time não vencia há um mês. Para muitos deles, ir ao estádio era a única forma de viver feliz numa sociedade onde os menos favorecidos eram proibidos de entrar em shoppings, teatros, cinemas e até mesmo de frequentar locais “proibidos” por não terem trajes “adequados”. Ali, todos eram iguais. Todos cantavam juntos, sofriam juntos, comemoravam juntos. Hoje, são impedidos por pessoas como você. A dor que eles sentem hoje é muito maior do que você possa imaginar. É a dor no coração de não poder, nunca mais, ver a maior paixão de sua vida. Porra, Kalil. Que sofrimento.

Twitter: @tedsimoes

 

One thought on “Kalil é claro: Futebol não é coisa para pobre. P***, que sofrimento!”
  1. Nivaldo Serva Filho 25 de julho de 2017 on 07:45 Responder

    Bom dia
    Parabéns pelo texto. Esse Kalil é mais um que ao contrário de proporcionar ao povo Educação e Segurança, criaram a famigerada “torcida única”, que não combate violencia nenhuma apenas exclui ainda mais os há muito tempo excluídos. Eles querem distancia do Povo.
    Torcida Única é o mesmo que o cara que flagou a mulher transando no sofá da sala e vendeu o sofá. Resolveu o que????
    Porra Kalil, futebol é pra o povão mesmo. Inclusive, foi ele quem te elegeu.

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