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1982: A seleção que eu não vi – mas ouvi mais do que qualquer outra.

Foto: Google

5 de Julho de 1982. Ao completar meu quarto mês de vida, eu não tinha ideia do que estava acontecendo ao meu redor. Mas desde que comecei a acompanhar o futebol, ouço sobre esse dia em quase todas as discussões de futebol que participei. 35 anos depois, me espanto com a comoção que um time causou em todas as pessoas dessa geração. Afirmo sem qualquer medo: acho impossível que essa história se repita.

A ESPN Brasil exibiu nessa quarta um belíssimo especial com o depoimento de várias pessoas sobre aquele dia. Os passos, os sentimentos, a incredulidade e o choro. Histórias que ouvi de meu pai, de meus tios, primos e até dos pais de meus amigos. Um tio meu já me falou diversas vezes que em apenas 3 ocasiões viu o Brasil ficar de luto: nas mortes de Ayrton Senna e Tancredo Neves, e na tragédia do Sarriá. Para muitos, a morte do futebol Brasileiro.

O Brasil passava por um momento único em sua história. Se desgarrando da ditadura, começando a falar de democracia. Algo que muita gente, principalmente da minha geração, não consegue entender. Poder conversar sobre assuntos até então proibidos. Poder se posicionar, seja para um lado como para o outro. Debater. Se expressar. O que hoje parece ser tão simples, a 140 caracteres no twitter, nos textões do facebook, em um blog ou até mesmo nas ruas, antes era proibido. Essa geração tinha na seleção Brasileira um alento à liberdade de expressão. O capitão do time era um símbolo das Diretas Já, o movimento que trouxe a redemocratização do país. Doutor Sócrates, de nome imponente e futebol majestoso.

Ao seu lado, uma geração de talento raro. Os dois laterais eram do Flamengo e até hoje muita gente diz que são os melhores laterais da história do futebol Brasileiro. Não cheguei a ver Leandro jogar, mas vi um pedacinho do final da carreira de Júnior, já jogando no meio de campo, levando um time de garotos ao título nacional. A zaga era composta por Luizinho e Oscar, dois dos melhores zagueiros já vistos nesse país. O meio de campo é daqueles que ninguém parece acreditar quando falam: Toninho Cerezo, Falcão (o rei de Roma), Sócrates e um tal de Zico. A primeira vez que fui num estádio foi para ver o Flamengo de Zico, mesmo depois de sua ida ao futebol Italiano. Meses depois, fui ver o Santos do Doutor Sócrates. Ver esses caras era como ver os Beatles. Era algo que era necessário em sua vida, uma oportunidade única. Eder, Serginho Chulapa e Valdir Perez completavam esse time, treinados por aquele que é considerado o maior treinador da história do futebol Brasileiro: Telê Santana.

Infelizmente não vi nenhum deles jogar no seu auge. Não tenho qualquer propriedade para falar de algo que não vi. Mas até hoje ouço deliciosas histórias sobre uma geração que mudou o rumo do futebol Brasileiro. De como um time conseguiu conquistar um país inteiro, que sofreu mais que os próprios jogadores.

No documentário, um emocionado Paulo Roberto Falcão fica incrédulo ao ver Pep Guardiola falar daquele time. O Catalão, considerado o último cara a mudar o futebol, reconheceu a óbvia influência da seleção de 82 em seu trabalho. Repetiu o que todo mundo já cansou de falar: se um time ainda causa tanta comoção, mesmo sem ter vencido nada, é porque foi algo especial.

Esse “algo especial” me acompanha desde sempre. Como fã declarado de Pep Guardiola, já cansei de ouvir que “o que ele faz, a seleção de 82 fazia. E muito melhor”.

Infelizmente, a seleção de 82 nos causou um grande problema. Os haters (que naquela época nem sabiam de suas existências) aproveitaram para criar a lógica do “não adianta jogar bem e perder”, “eu prefiro ganhar de meio a zero jogando feio do que perder jogando bonito”, “lugar de espetáculo é no teatro”, entre tantos impropérios. O futebol de resultados nascia ali. Era um pecado jogar com 4 meias tão habilidosos, 2 laterais tão ofensivos. Precisávamos dos brucutus. Nascia ali, a famosa Era Dunga. Mesmo que seja um pouco de injustiça, pois o jogador Dunga não era tão ruim assim. Fez uma grande copa de 94. Mas para variar, deu uma declaração anos depois, criticando o futebol arte da seleção de Telê. Chegou a chamá-los de “Bons com azar”.

“A verdade do futebol está no campo, nos resultados. E ele é interessante porque cada um pensa de um jeito. Eu, por exemplo, já vi muitos times perderem fazendo muita firula. O que mais interessa é ser objetivo, entrar em campo para ganhar” 

“Da seleção brasileira todo mundo espera espetáculo, todos cobram isso. Mas o que temos de buscar na verdade são as vitórias e não o show. Se ficarmos insistindo em dar espetáculo vamos ficar mais 24 anos sem ganhar nada de importante e ver os europeus felizes da vida com essa situação” (Dunga)

O capitão da copa de 94 era bastante limitado como jogador. Como técnico, um desastre total. Seus times ficaram marcados pela total falta de identidade com o futebol Brasileiro. Ganhou títulos tanto como jogador como treinador, coisa que a geração de 82 não conseguiu. Mesmo com tantas conquistas, jamais conseguirá o carinho que os torcedores tem pelo time de Zico, Sócrates e Falcão.

A grande verdade é que o 7-1 começa no último gol de Paolo Rossi, o maior vilão da geração de meus pais. Ali, perdemos nossa identidade. Começamos a aplaudir e idolatrar a retranca de Parreira, o famoso Muricybol e a eficiente seleção de Dunga. Mesmo quando o próprio Parreira resolveu se redimir e formou a boa seleção de 2006, os planos foram jogados por terra depois do gol de Henry. E chama o Dunga, e chama o Mano, e chama o Felipão. E bota o Felipe Melo, e bota o Luis Gustavo, e bota mais volantes para jogar com eles. E joga no Robinho, e joga no Neymar. Eles que resolvam. E ai deles se não resolverem!

O futebol Brasileiro precisou dessas pancadas para acordar. Tite tem uma responsabilidade enorme nas mãos. É óbvio que todos nós amamos ganhar. É óbvio que a cobrança em cima dele é para ser campeão e nada mais. Mas a verdade é que precisamos cobrar o bom futebol. Isso serve para Alexandre Gallo, Jorginho, Guto Ferreira, Petkovic, Fábio Carille, Rogério Ceni e qualquer treinador do futebol Brasileiro. Não dá para aguentar mais o baixíssimo nível do Campeonato Brasileiro, e muito menos dos ultrapassados Estaduais. E não precisamos de muito dinheiro para isso. Mesmo que as nossas estrelas joguem no futebol Europeu, dá para exigir mais dos treinadores e jogadores daqui. Fugir um pouco do futebol de resultado, tentar resgatar – nem que seja um pouquinho só – o espetáculo que a seleção de 82 dava. Não dá para voltar ao passado, são outros tempos. Mas dá para construir um futuro melhor. Bem melhor.

PS: me perdoem pela ausência, mas já estou de volta das férias. Em breve mais textos sobre a dupla BAVI na série A.

twitter: @tedsimoes

3 thoughts on “1982: A seleção que eu não vi – mas ouvi mais do que qualquer outra.”
  1. Luiz Augusto Lima Britto 6 de julho de 2017 on 14:22 Responder

    Lembro daquele dia como se fosse hoje. Salvador parada.
    Assim que o jogo acabou ficamos parados olhando uns para os outros como se perguntado: e aí ? é verdade mesmo ?
    Como sempre fizemos, fomos para a barra e lá a verdade caiu nua e crua, estávamos fora da Copa. A melhor seleção que já havia existido(acho que melhor até que a de 70) havia caido para um time de apenas um jogador. Um jogador que teve apenas um grandioso jogo em toda a sua vida.
    Nunca mais o futebol foi o mesmo. Nunca mais ví aquela alegria em campo.
    Salve a melhor seleção de futebol de todos os tempo !!

  2. ROBSON COSTA 6 de julho de 2017 on 14:51 Responder

    Perfeita a sua colocação.
    Nosso futebol está feio, sem graça, sem “FUTEBOL”.

  3. TASSIO LEAN 7 de julho de 2017 on 08:46 Responder

    Assim como você, não vi, mas ouvi meu pai falar sobre a seleção de 82. Como jogava fácil e bonito. como você já mencionou, nosso futebol caiu de nível. Fomos campeões em 1994, mas sem um futebol bonito, sem encantar nosso povo. Espero, também, ver o campeonato brasileiro ser disputado em alto nível, como quem sabe a Premier League. Aí estaríamos em um caminho de crescimento qualitativo, Foi-se a época que brotava craques o tempo inteiro no nosso futebol, foi-se!

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