Bem vindo ao

Blog do Ted

Home / Futebol no mundo / No Brasil, na Inglaterra e em qualquer lugar do mundo: jogador de futebol é tudo igual…

No Brasil, na Inglaterra e em qualquer lugar do mundo: jogador de futebol é tudo igual…

ranieri

Foto: www.fifa.com

A história é um conto de fadas. O melhor roteiro para um filme Hollywoodiano. Uma versão atual de Davi e Golias. Com uma diferença: era apenas um Davi contra vários Golias. Assim, o Leicester conseguiu o inimaginável título de campeão Inglês na temporada passada. Um time que havia lutado contra o rebaixamento no ano anterior, com um treinador que nunca esteve entre os melhores do mundo e jogadores que nem de longe figuravam entre os principais da liga. Não foi a toa que as casas de apostas na Inglaterra pagavam cinco mil euros para cada aposta única. Para algumas delas, era mais provável que Elvis Presley estivesse vivo ou que o Papa Francisco se tornasse jogador de futebol do que o Leicester terminar o campeonato como vencedor. No final das contas, foi a maior tragédia da história das casas de apostas: as perdas chegaram a 13 milhões de Euros. A direção do clube também tomou um “prejuízo” nos cofres (nada comparado à premiação paga pela Federação Inglesa). No início da temporada, foi prometida uma premiação de 11 milhões de Euros caso o time terminasse na… 12ª posição. Ninguém acreditava no impossível.

Claudio Ranieri chegou ao pequeno clube com uma missão: livrar o time do rebaixamento. Afinal, a moderna liga Inglesa é o campeonato mais difícil do mundo. Além dos tradicionais Manchester United, Liverpool e Arsenal, o campeonato ganhou mais concorrentes quando o Manchester City e o Chelsea se tornaram novos ricos, comprados por bilionários. Além disso, o Tottenham Hotspurs e o Everton sempre fizeram frente aos 5 poderosos com bons times. Para piorar a situação, os outros “pequenos” vinham de boas temporadas, conseguindo se manter sem sustos na primeira divisão. Não foi a toa que o Leicester era o principal candidato ao rebaixamento. Quase todos os meios de comunicação apostavam que seria o pior time do campeonato.

O elenco contava com jogadores desconhecidos. Alguns eram refugos dos times grandes, como o goleiro Schmeichel, que começou sua carreira no Manchester City. Danny Drinkwater veio sem qualquer tipo de brilho do Manchester United. Outros vieram de times menores: o capitão Morgan veio do Nottingham Forest, da segunda divisão. O artilheiro Jamie Vardy veio do Fleetwood Town, da terceira divisão. Kanté e Mahrez, outros dois grandes destaques, vieram do futebol Francês, sem qualquer tipo de alarde. Como um time desses poderia bater de frente com verdadeiras seleções formadas pelos 5 clubes mais ricos do país? Nem em Hollywood, pensariam muitos.

Com 64 anos, o treinador Italiano chegou à Inglaterra de forma discreta. Parecia estar em fim de carreira, após treinar alguns dos maiores clubes do mundo, mas sem conquistar grandes títulos. Nunca havia vencido uma liga de primeiro escalão (ganhou a segunda divisão na Itália e na França) e seu maior título até então era uma Copa da Itália com a Fiorentina e uma Copa do Rei pelo Atlético de Madrid. Muito pouco para um treinador com 30 anos de carreira e passagem por grandes clubes.

Sabendo da missão, Ranieri não teve dúvidas: tinha que montar uma equipe limitada para conseguir resultados pontuais. Vencer seus adversários pelo rebaixamento em casa e tirar pontos fora. Contra os grandes, conseguir um empate em casa já seria mais do que suficiente. Ninguém contava com pontuações longe dos seus domínios.

Vindo da escola Italiana, a mais famosa no sistema defensivo do futebol mundial, todos imaginavam que Ranieri poderia atingir seu êxito com muito esforço. Se os jogadores comprassem suas ideias, aquele time poderia se safar do rebaixamento nas últimas rodadas, e ele seria o herói do ano. E foi justamente por aí que ele começou a montar o time. Ajustou o sistema defensivo e apostou na velocidade para surpreender nos contra golpes. Em Português claro, fez o feijão-com-arroz.

O Leicester que entrara desacreditado no campeonato, começou a surpreender. Nos 10 primeiros jogos, somou incríveis 19 pontos. Em casa, venceu seus concorrentes, empatou com o Tottenham e tomou um sonoro 5-2 do Arsenal. Fora de casa, surpreendeu o West Ham e empatou os outros duelos. Tudo como estava previsto no planejamento. A missão de fugir do rebaixamento estava funcionando perfeitamente. No final do primeiro turno, o time já estava surpreendendo o planeta: com 39 pontos, dividia a liderança do certame com o Arsenal. Eram 22 pontos à frente do primeiro rebaixado. A missão parecia cumprida. O Leicester iria passar mais um ano na Premier League.

Naquele momento, ninguém acreditava no título. Todos achavam que era fogo de palha e que o time não suportaria o segundo turno. Não tinha elenco para alçar voos maiores. Provavelmente não conseguiria nem uma vaga na Champions League, que de repente, se tornou objetivo.

O resto da história todo mundo lembra. O Leicester fez um segundo turno avassalador, vencendo quem aparecesse em sua frente. Bateu o Tottenham e o Manchester City em seus domínios, jogando um futebol de campeão. Mahrez e Vardy  assombraram as defesas adversárias. O Argelino foi eleito o melhor jogador da competição e o Inglês foi vice artilheiro, fazendo apenas um gol a menos que Harry Kane, estrela do Tottenham. Claudio Ranieri foi eleito o melhor treinador do certame, enquanto Morgan e Kanté se juntaram aos dois companheiros no time do ano. Campeão indiscutível.

A pergunta que não calava na Inglaterra era apenas uma: como seria o Leicester desse ano? Será que os dirigentes conseguiriam manter elenco e treinador para a continuação do conto de fadas? Mahrez estava especulado em todos os times grandes da Europa, inclusive no todo poderoso Barcelona. Vardy era dado como certo no Arsenal. Ranieri viu seu nome ser cogitado inclusive pela seleção Inglesa, que promoveu mais um fiasco na Eurocopa. No fim das contas, apenas o incansável Kanté deixou o clube, após uma proposta irrecusável do Chelsea. O torcedor não ficou triste. Com a grana entrando, perder apenas um jogador era lucro. Dava para trazer outros bons nomes ao recém campeão Inglês.

Mas a temporada começou estranha. Apesar do sucesso na Champions League, com a classificação antecipada às oitavas de final, o time vinha derrapando no Inglês. Nem de longe lembrava o time que surpreendeu o planeta na temporada anterior. Para piorar, o time estava na zona de rebaixamento, que outrora era seu lugar. O que estava acontecendo? Será que o conto de fadas foi uma sorte do acaso? Um ano ruim dos adversários? Será que tudo se alinhou para que aqueles jogadores fizessem a melhor temporada de suas vidas ao mesmo tempo?

Sem pestanejar, a diretoria do clube resolveu fazer o óbvio: demitir o herói do título. Aquele velho papo da “mudança”, de “chacoalhar” o elenco, do “motivo novo”. Os velhos jargões utilizados por dirigentes de futebol. Principalmente no Brasil. Nos últimos anos, exportamos essa bizarrice ao futebol Europeu. O modo mais fácil de tirar o seu da reta e jogar a culpa em uma pessoa só: aquele que nasceu para ser chamado de burro.

O Leicester vinha de uma sequência bizarra. em 2017, não havia marcado um golzinho sequer. Até que recebeu o Liverpool, 3º colocado do campeonato. No primeiro jogo sem Ranieri, a torcida mostrou seu carinho ao treinador e sua indignação à diretoria: faixas de apoio e gratidão tomaram conta do estádio. Pessoas usando uma máscara do treinador. E no minuto 65 (idade do Italiano), todos se levantaram para aplaudir o ex-treinador por um minuto.

Mas o que impressionou mais não foi essa demonstração de carinho. Foi justamente o time que parecia estar morto, voltar a jogar o futebol que encantou e conquistou o mundo. Dominou o Liverpool durante 1 hora, aplicando um 3-0 fácil. Justamente após os aplausos dos torcedores, o time tomou um gol. Estranho, não?

Os jogadores do Leicester não se manifestaram após a demissão do treinador. Um mês antes, havia sido publicada uma matéria em que o artilheiro Vardy havia brigado com Ranieri e forçado sua demissão. O mesmo Vardy que marcou dois gols no primeiro jogo sem seu desafeto. A aplicação tática do time também foi de se estranhar. Afinal, era praticamente o mesmo time campeão que jogou por toda a temporada.

Não é segredo nenhum que a prática de derrubar treinador é algo comum no meio do futebol. Histórias e mais histórias sempre surgem. O próprio Chelsea passou por isso ano passado: após ser campeão na volta de José Mourinho, o treinador mais vitorioso na história do clube, idolatrado por sua torcida, o time também frequentou a zona de rebaixamento até que o Português foi mandado embora. Por coincidência, a maior estrela do time também apareceu em rumores de desavenças com o treinador. E logo depois que ele foi embora, voltou a jogar como nunca. Quantas e quantas vezes já ouvimos isso aqui no Brasil?

Os clubes estão nas mãos dos jogadores e sabem disso. Ao contrário de tempos antigos onde os jogadores criavam raízes no clube, hoje trocam de time e beijam os escudos dos outros com uma facilidade imensa. O futebol moderno, prática antiga no Brasil, chegou à Europa com força total. Para variar, somos vanguarda de mais uma bizarrice. Como dizem por aí, o 7-1 foi realmente muito pouco. Só falta agora exportarmos a ideia de torcida única no estádio. O último, por favor, apaga a luz.

twitter: @tedsimoes

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

>> <<