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E se Romário tivesse levado sua carreira a sério?

Foto: Marcelo Dutra
Foto: Marcelo Dutra

Foto: Marcelo Dutra

Há 18 anos, um dos lances mais icônicos do futebol Brasileiro nos últimos anos: Iranildo carrega a bola no meio do campo, e lança para Romário no lado esquerdo da área. O baixinho está acompanhado de perto por Amaral, volante com passagens pela seleção. Em um passe de mágica, um elástico. Outros três defensores do Corinthians tentam fazer a cobertura do nocauteado Amaral. Entre eles, Gamarra. O Paraguaio era considerado por muitos o melhor zagueiro do mundo. Romário segue frio com a bola. Não se desespera nem ao ver Dida, o goleiro da seleção, sair do gol. Afinal, com quase 2 metros de altura, o gol ficaria menor. Romário não tem espaço. Era impossível fazer aquele gol.

Ele fez. Fez o que era impossível. E ainda fez parecer fácil. Com uma tranquilidade de quem estava batendo um bába na Vila da Penha, onde cresceu. Nem parecia um Corinthians e Flamengo, os times de maior torcida do Brasil, no Pacaembu. Destronou grandes nomes do futebol mundial como quem brinca com seus vizinhos num campinho de terra.

Romário teve uma carreira de sucesso na Europa. Chegou ao PSV com 22 anos e fez 165 gols em 167 jogos pelo clube. Foi vendido ao Barcelona, onde passou apenas duas temporadas. No clube Catalão, também teve aproveitamento impressionante: 34 gols em 46 jogos. Mesmo jogando pouco, foi eleito em 2007 para o time dos sonhos do Barça. No auge da sua carreira, levou o Brasil ao tetra campeonato mundial, sendo decisivo e fundamental para o time. Ganhou o prêmio de melhor do mundo. Aos 29 anos, era o atacante mais cobiçado do mundo. O que ele resolveu fazer? Voltar ao Brasil.

Por onde passava, Romário era ovacionado. Cruyff, então treinador do Barcelona, dizia que nunca tinha visto algo igual ao talento do Baixinho. Tostão, craque da copa de 70, o coloca como o melhor centroavante da história do futebol. Guus Hiddink, seu treinador no PSV, declarou que quando ficava nervoso antes do jogo, Romário virava para ele e falava: “Relaxe, professor. Vou fazer meus gols e vamos ganhar. O impressionante é que em oito de dez vezes, isso realmente acontecia”. Romário colecionava histórias pela Europa.

A mais famosa provavelmente foi num jogo contra o Valencia, na Espanha. Era época de Carnaval e tudo que Romário queria era estar no Rio curtindo a folia. A história é contada pelo próprio Cruyff:

– Uma vez, ele veio me perguntar se poderia faltar a dois dias de treinos para voltar ao Brasil. Deveria ser carnaval no Rio de Janeiro. Eu respondi: ‘se você fizer dois gols amanhã, te dou dois dias a mais de descanso que o restante da equipe’. No dia seguinte, ele marcou seu segundo gol com 20 minutos de jogo e imediatamente fez um gesto para mim pedindo para sair.
– Ele me disse: ‘Treinador, meu avião sai em menos de uma hora’ – completou Cruyff, que deixou que o atacante viajasse por ter cumprido a promessa.

A paixão de Romário pelo carnaval, futevôlei e as baladas são mais que conhecidas. E provavelmente os motivos para não afirmar, com toda a certeza, que ele foi o maior jogador do mundo depois de Pelé, como ele mesmo gosta de dizer. Romário não brilhou por tanto tempo num centro do futebol mundial como Messi, Cristiano Ronaldo ou Ronaldo Fenômeno. Seu período no PSV foi de grande destaque, mas a Liga Holandesa estava muito atrás da Liga Italiana ou Espanhola, as maiores da época. Como ficou apenas dois anos no Barça, é muito mais reconhecido pelo título mundial com a seleção do que pela carreira em clubes Europeus.

Sem contar que nunca gostou de treinar. Serviu até de inspiração para o humorista Tom Cavalcante criar a música “Treinar pra quê, se eu já sei o que fazer?”, em uma de suas imitações. Preferia jogar futevôlei com os amigos, o que sempre causava inúmeras lesões musculares. Foi cortado da Copa de 98 justamente por uma dessas contusões. Perdia noites e noites nas melhores baladas, com as modelos mais famosas do país. Era um bad boy, um Bon vivant, um boêmio. Não se preocupou em ser um atleta, como faz Cristiano Ronaldo. Ou em focar em seu talento, como faz Lionel Messi. Para Romário, bastava entrar em campo. E o pior de tudo é que sempre funcionava.

Talvez a nova geração não entenda a grandeza de Romário. O futebol mudou muito nos últimos 20 anos. Títulos de Champions League e Bola de Ouro tem valores muito maiores que na época do baixinho. Com a competição polarizada nos últimos dez anos entre Ronaldo e Messi, muitos sequer imaginam que Romário possa ser comparado aos dois maiores jogadores do momento. Na verdade, se compararmos a carreira dos três em clubes, Romário leva uma goleada. Só vence no quesito seleção (falar que “só” é brincadeira, né?), onde foi protagonista da maior conquista que um jogador de futebol pode ter.

Mas a pergunta é justamente essa: E se Romário tivesse levado sua carreira a sério? Treinasse com afinco como faz o Português do Real Madrid, para superar o talentoso Argentino do Barcelona? Como disse o comentarista da ESPN, Arnaldo Ribeiro, CR7 e Messi são dois CDF’s. São aqueles caras que sentam na frente da classe, prestam atenção em cada palavra do professor, anotam tudo. Chegam em casa e vão estudar. Revisam tudo antes de dormir e aguardam ansiosamente a aula do dia seguinte.

Se Romário fosse assim, sua carreira teria sido ainda maior. Ele era impressionante. Um talento nato, rudimentar, que se tivesse sido aprimorado, chegaria facilmente no nível dos dois CDF’s da turma. Mas ele preferiu ficar lá no fundo da sala, brincando com os parceiros. A diferença é que ele sempre passava de ano sem sustos, impressionando os professores que não entendiam como alguém tão relapso atingia notas tão altas. E foram tantas notas altas que é difícil escolher a melhor. Mas aquela em Amaral, há dezoito anos, ecoa nos pensamentos de qualquer amante do futebol até hoje. A nota 10 mais perfeita de todos os tempos.

twitter: @tedsimoes

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