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O dirigente Brasileiro precisa copiar o que acontece na Europa?

Foto: Ted Simões

Foto: Ted Simões

No início do mês, tive a oportunidade de acompanhar dois grandes jogos na Europa. Em Manchester, presenciei a vitória do Chelsea em cima do meu Manchester City de Guardiola. Depois, fui à Munique acompanhar a vitória do Bayern sobre o Atlético de Madrid, em jogo válido pela Champions League. Muito mais que a constelação de craques e super técnicos, valeu a pena presenciar o clima dos dois jogos em culturas completamente diferentes da nossa realidade.

Começamos com o clássico Inglês. Mais uma vez fui à Manchester pra ver o confronto entre Chelsea e City. Na primeira vez, dei sorte ao meu time do coração. Naquela ocasião, o City venceu por 2-0, com direito a uma defesa de pênalti de Joe Hart, que foi desprezado pelo novo técnico, Pep Guardiola. Dessa vez, o excelente time Londrino virou o jogo e assumiu a liderança da Premier League naquela ocasião. Hoje, o Chelsea está sobrando no campeonato: lidera com ampla vantagem o certame.

Os jogos do campeonato Inglês acontecem num horário mais cedo que no Brasil. Esse aconteceu ao meio dia, numa gelada Manchester. A cidade respirava o jogo. Os torcedores do Chelsea chegaram cedo na cidade. 344 kms separam a capital da Inglaterra do norte. Muitos torcedores pegam um trem (que custa algo em torno de 250 Reais) ou um ônibus (que custa em torno de 30 reais), ou até mesmo podem ir dirigindo. As estradas são excelentes, e em 3 horas o torcedor já está na porta do estádio.

Alguns pubs no centro da cidade servem de ponto de encontro para as torcidas. Claro que existe uma restrição: nos pubs do Chelsea, torcedor do City não entra, e vice-versa. A Inglaterra aprendeu direitinho a lidar com as confusões causadas pelos Hooligans.

Do centro para o estádio são mais 2,5 kms. Transporte em Manchester não é essa maravilha que estamos acostumados a pensar quando falamos de Europa. É bem ruim, por sinal. A grande maioria vai e volta andando, mesmo com aquele frio absurdo que já citei. São 30 minutos a pé, lado a lado com o torcedor “inimigo”. Uma provocação aqui e outra ali, mas nada preocupante. Lá, o torcedor sabe que brigar é uma dor de cabeça. O sujeito pode ser até banido dos estádios. Por isso, todo mundo se comporta direitinho.

Fora do estádio é uma festa. Primeiro, a torcida fica na frente da entrada principal esperando o ônibus do time chegar. Cada jogador que desce do ônibus tem seu nome gritado pelo locutor e ovacionado pela torcida. Pep Guardiola, é claro, foi o mais festejado. A cidade ainda não consegue acreditar que o melhor treinador do mundo está por lá.

Depois a torcida se encaminha para um palco que fica em frente a loja do clube. Lá ocorre um tipo de talk show. Um apresentador chama a torcida, faz disputa de embaixadinhas com prêmios, discute a escalação do time, tem piada, tem coisa séria. Tem banquinhas vendendo cervejas, hambúrguer e Fish & Chips, tradicional guloseima Britânica. Todos prontos, hora de entrar no estádio.

Antes da bola rolar, uma belíssima homenagem à Chape. O trágico acidente tinha acabado de acontecer. Um minuto ensurdecedor de silêncio. Das coisas mais tocantes que eu presenciei em toda a minha vida.

Foto: Ted Simões

Foto: Ted Simões

O jogo começou e foi uma grande aula tática. Um jogo em que todo treinador Brasileiro deveria gravar e guardar no seu repertório. O City dominou o Chelsea por 60 minutos. Guardiola mostrou todo seu repertório de futebol compacto, defesa alta, posse de bola, infiltrações. Fez um gol no fim do primeiro tempo e perdeu duas chances inacreditáveis no início do segundo tempo. Foi o que bastou para o Chelsea. Em 3 contra-ataques, o time de Londres virou o jogo e não correu mais riscos. O Italiano Antonio Conte, treinador do time Londrino foi muito esperto. Montou sua sólida defesa, esperou o City cansar e usou suas armas. Foi um verdadeiro jogo de xadrez.

Conversando com alguns torcedores, eles pareciam resignados com a derrota. Falaram muito em início de trabalho, mesmo com Guardiola há 6 meses no comando do time. Entendem que a filosofia de jogo do Catalão não vai ser implementada do dia pra noite. Algo muito diferente da mentalidade Brasileira. Em compensação, não deixaram de externar uma certa preocupação. Sabem que o futebol Inglês é o grande desafio de Pep, por ser muito diferente do Espanhol e Alemão, onde ele foi vitorioso. Citaram até o rival Arsene Wenger, técnico do Arsenal, como prova disso. O Francês joga o futebol mais bonito da Inglaterra há 20 anos mas não consegue ganhar a Premier League há uma década. Dizem que jogar bonito é muito legal, mas não garante um campeonato tão duro como o Inglês. Que as vezes é preciso jogar feio. Em entrevista recente, Pep afirmou que morre abraçado a seus ideais. Vai ser interessante ver até quando o torcedor vai ter paciência.

É impressionante notar também a paciência e o respeito que a torcida tem com seus jogadores. O ponto fraco do City é a sua defesa, que está envelhecida. Kolarov e Otamendi foram duas grandes tragédias no jogo. A dupla de zaga foi uma grande mãe pra Diego Costa e cia. Mas em momento algum, eles foram vaiados. Aquela perseguição que geralmente ocorre no futebol Brasileiro não acontece por lá. Mas no pós jogo, ninguém perdoa. A torcida não consegue entender o amor de Pep por Kolarov, improvisado na zaga, e muito menos em Otamendi, visto por muitos como um jogador ruim. Nesse jogo, não sobrou nem pro grande ídolo da torcida, o centroavante Aguero. Após sua expulsão em uma entrada desleal em David Luiz, a torcida reprovou o comportamento do Argentino. Teve um torcedor que chegou a dizer que ele já está ficando velho. Aos 28 anos! Quanta diferença para o torcedor Brasileiro.

De Manchester, fui a Munique acompanhar outro jogaço. Bayern e Atlético, pela última rodada da Champions League. O jogo já não valia mais nada: os dois times estavam classificados e o Atlético já tinha garantido o primeiro lugar do grupo. Jogo para cumprir tabela, reservas em campo para poupar os titulares, certo? Errado.

Munique foi invadida pelos Colchoneros, a torcida do Atlético. Pouco importava se o jogo não valia nada. 3 mil torcedores saíram de Madrid para invadir a geladíssima Allianz Arena. O termômetro marcava dois graus negativos, mas a sensação era de pelo menos dez negativos. O pior frio que já encarei na vida. Para piorar a situação, o estádio não tem aquecedor. No tour que fiz pelo estádio, um dia antes do jogo, o guia explicou que é de propósito: uma arma para enfrentar os adversários. Nesse momento, pensei em todos os jogadores Brasileiros que fizeram sucesso por lá, inclusive os atuais Douglas Costa e Rafinha. É muito difícil se adaptar em condições tão adversas à nossa realidade. Não é fácil jogar no Bayern de Munique.

Ao redor do estádio, torcedores tomam muita cerveja e comem os tradicionais salsichões Alemães, para esquentar. O sistema de transporte em Munique é excelente. A estação de metrô é quase na porta do estádio. 10 minutos andando, mas nesse frio que falei parece uma hora. Você perde a noção do tempo de tanto frio.

Antes do jogo começar, mais uma homenagem a Chape. Mais um minuto de silêncio ensurdecedor.

Acabei comprando um ingresso para a zona Standing, ou seja, em pé. Uma simulação de arquibancada, mesmo que tenha cadeiras. Nessa área, fica a torcida organizada do Bayern. Todos em pé, cantando por 90 minutos canções do time. Bandeiras que não param por um minuto. Algo que sinto falta nos estádios Brasileiros depois do fenômeno da Arenização.

Dentro de campo, mais um jogo de xadrez: O Bayern, que até pouco tempo atrás era treinado por Guardiola, foi o dono da bola. Ditou o ritmo do jogo enquanto o Atlético de Simeone mostrava uma aplicação tática fora do comum. É impressionante como o time Espanhol/Argentino não dá qualquer oportunidade. O nível de concentração mantido por 90 minutos é absurdo. Não a toa, o jogo foi decidido numa bola parada, na genialidade do craque.

Queria destacar o grande ponto desse jogo. Manuel Neuer. Vocês não conseguem imaginar a inteligência do goleiro Alemão. Não é exagero nenhum dizer que ele é um craque. O jogo sempre começa com ele, que é muito mais que um goleiro. É um líbero, um zagueiro e chegou a ser até um volante, quando saiu para interceptar um ataque e driblou o atacante, chegando próximo ao meio de campo para passar a bola. Sua colocação é absurda. Quando a bola está nas laterais, se posiciona para receber a qualquer momento. Foi acionado durante todo o jogo e deu apenas 4 chutões. Saiu jogando com a categoria de um meia na grande maioria das vezes. Um diferencial que nenhum time no mundo tem.

Foto: Ted Simões

Foto: Ted Simões

De todos os jogos que fui na Europa ao longo desses anos, a torcida do Bayern me cativou. Foi o mais próximo que já presenciei das torcidas Brasileiras nos anos 80 e 90. Quatro torcedores ficam de costas pro gramado, puxando os cantos de guerra da torcida. Robert Lewandovski marcou o único gol do jogo numa bela cobrança de falta e o barulho da torcida foi algo espetacular. No tour que fiz, o guia também nos mostrou que a acústica do estádio foi pensada para intimidar o adversário. Ele nos desafiou a gritar para sentir o eco e imaginar como era com 70 mil pessoas gritando. E foi exatamente o que aconteceu. Assim como em Manchester, o jogo foi sold-out (todos os ingressos vendidos).

A reflexão que fica é que precisamos de dirigentes corajosos para encher os estádios novamente. Ingleses e Alemães amam o futebol, mas nós também amamos. Apesar das culturas diferentes sobre o que é o jogo, do avanço tático e claro, da grana envolvida para contar com os maiores do mundo, o Brasil pode fazer sua festa do nosso jeito. Não é preciso copiar: vivemos em uma realidade completamente diferente. Não dá para, por exemplo, esperar que 3 mil torcedores visitantes compareçam em todos os jogos. O Brasil é um país enorme, o transporte é precário. O Aeroporto de Manchester tem voos diretos para quase todas as cidades Européias. Salvador não tem voo direto para Porto Alegre, por exemplo. Sem contar a situação econômica do país e o próprio poder aquisitivo das pessoas.

Mas isso não é desculpa para tanto espaço vazio nas arquibancadas. É algo que sempre vou bater na tecla. Os times precisam do povo no estádio. Dá para categorizar? Sim. Mas tem que ter o espaço do povo, o ingresso barato. Um setor pode custar mais caro, sem problemas. Mas a grande maioria dos lugares deve custar barato. Não canso de repetir que a iniciativa deveria começar aqui na Bahia. Os dois times Baianos podem ser pioneiros de uma grande revolução no futebol Brasileiro. Ingresso na Fonte Nova e no Barradão devem custar R$5. Isso, cinco reais. Tornar sua casa uma arma, como faz o Bayern de Munique. Se não podemos apelar para o frio, apelamos para o calor da torcida. 40 mil vozes empurrando os times Baianos para que eles possam voltar a ser respeitados, temidos. Apenas o discurso de time grande que o torcedor gosta de ouvir não adianta.

Marcelo Sant’ana chegou ao poder no Bahia prometendo modernidade e afastou seu maior patrimônio. Prometeu brigar com a Arena Fonte Nova e a torcida tricolor continua sendo tratada como gado pela concessionária da Arena. Precisa perceber que eles precisam muito mais do Bahia que o contrário. Ivan de Almeida acabou de ser eleito pela chapa Vitória do Torcedor. Espero que ele realmente priorize o torcedor, colocando de volta aqueles que não tem condições de pagar R$30 num ingresso. E que ele não caia na besteira de “arenizar” o Barradão.

Pode parecer contraditório, mas a tão falada “gestão moderna” precisa aprender um pouco mais com o passado. Olhar para a época em que o futebol era um programa barato, acessível para todos. Época em que todos os times do Brasil detestavam vir a Salvador e enfrentar o Bahia na Fonte Nova lotada, ou enfrentar o Vitória na “Bombonera Brasileira”. Nadar contra a maré nesse caso me parece o certo a fazer. Seguir exemplos Europeus certamente não funcionariam aqui. Temos que aprender a fazer do nosso jeito, com nossas armas. Afinal, como diria o poeta, “quem constrói a ponte não conhece o lado de lá”.

twitter: @tedsimoes

2 thoughts on “O dirigente Brasileiro precisa copiar o que acontece na Europa?”
  1. Lucas 22 de dezembro de 2016 on 12:03 Responder

    Parei de ler o texto na seguinte frase: “em cima do meu Manchester City de Guardiola”. Ainda quer falar de dirigente brasileiro sobre cópias européias ? Vai pra uma bancada de verdade e depois vc expõe algo.
    Aprenda um pouco aqui:http://diretorianews.blogspot.com.br/2009/09/sobre-futebol-hooligans-e-historias.html

  2. Zenaldo Santos 22 de dezembro de 2016 on 14:08 Responder

    Falou e disse. Nada a acrescentar a este comentário. O que falta aos clubes, em particular os nossos baianos, é profissionalismo. Ainda vivemos como numa província. Os dirigentes ainda atual como CARTOLAS. Isso já acabou.

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