Bem vindo ao

Blog do Ted

Home / Futebol Baiano / O Vitória elege seu novo presidente através da chapa “Vitória do Torcedor”. Mas o presidente tem que ser mesmo torcedor?

O Vitória elege seu novo presidente através da chapa “Vitória do Torcedor”. Mas o presidente tem que ser mesmo torcedor?

Foto: Ricardo Palmeira
Foto: Ricardo Palmeira

Foto: Ricardo Palmeira

O Vitória elegeu seu novo presidente na noite desta quinta-feira, dia 15 de dezembro. O professor Ivan de Almeida, que encabeça a chapa “Vitória do Torcedor” foi eleito com 528 votos. A grande novidade foi a eleição direta, com voto do torcedor, algo inédito no clube. O Leão dá um passo à frente na redemocratização tão aguardada do time.

Uma das grandes promessas da chapa é a mudança no estatuto, engessado por vários anos. Segundo Ivan, é o primeiro item a ser tratado pela nova diretoria. Em entrevista ao portal A Tarde, o novo presidente prometeu que irá tratar o assunto como prioridade.

Na mesma entrevista, que você pode conferir aqui, o novo presidente do clube e o novo presidente do conselho deliberativo Paulo Catharino explicam como vai funcionar a gestão. Me preocupa um pouco a megalomania do discurso dos dois. Não é tão simples como parece, dirigir um clube tão grande como o Vitória. Nessas horas, é bom saber separar as coisas: o dirigente não pode tomar as decisões como torcedor. Precisa ser gestor, estudar o que acontece no futebol e principalmente saber encaixar na realidade do clube. Os programa de sócios é um bom exemplo disso. A realidade econômica da cidade é muito diferente de São Paulo e Porto Alegre, por exemplo. Não dá achar que o clube terá o mesmo êxito de Palmeiras e Inter. São outras realidades, que não chegam nem perto da nossa população.

Nessa mesma entrevista, o presidente Ivan cita a “grandeza” do clube para contratar jogadores. Esse é um discurso perigoso. O discurso do torcedor de qualquer time. Que o time é grande e não pode se apequenar, em suas palavras. Infelizmente, não é a realidade. E serve pro Bahia também. A verdade dói, mas precisa ser dita: os dois clubes Baianos hoje não fazem mais parte do primeiro escalão do futebol Brasileiro. São times que lutam pra se manter na série A. É irreversível? Claro que não. Mas precisa de um planejamento à longo prazo. Primeiro, se estabelecer na elite por três ou quatro anos. Depois, lutar pelo meio da tabela e quem sabe, brigar pela libertadores. Não dá pra se iludir, torcedor: não vai ser do dia para a noite.

O dirigente torcedor é um risco. Em qualquer área, não dá para gerir um negócio com a paixão. Ninguém duvida do amor ao clube que os integrantes que a chapa sentem. Mas hoje em dia, não basta ter amor. O futebol vem mudando numa velocidade impressionante. Não existem mais verdades absolutas nem fórmulas prontas. É preciso trabalhar, ter um planejamento e não se desgarrar dele na primeira crise. Erros acontecerão, e é preciso aprender com eles.

Cito dois exemplos de 2016 do próprio Vitória. O primeiro, um clássico erro do dirigente torcedor: a contratação de Victor Ramos. Foi um ídolo na primeira passagem. Chegou esse ano muito mais pelo passado que pelo presente. Foi um presente à torcida. O marketing deitou e rolou: “O xerifão voltou”. Deu no que deu. Victor Ramos não foi nem sombra do grande jogador que foi em sua primeira passagem.

O outro erro é de avaliação. As contratações de jogadores que foram bem no rival, como Kieza e Thiago Real. Uma prática bem comum dos dois times Baianos. O problema é que ambos foram bem na série B, onde o nível é baixíssimo. Kieza até que marcou seus gols, mas muito menos que o esperado. E Thiago Real foi um fracasso retumbante. O que já era esperado. Mais uma vez, o dirigente torcedor entrou em ação. A gozação em ter tirado os jogadores do rival foi maior que o investimento no próprio time.

Outro ponto importante da reunião foi uma pergunta do internauta sobre experiência no clube. Paulo Catharino cometeu mais um grande equívoco em querer citar os exemplos de Palmeiras e Flamengo como times que são dirigidos por pessoas que não eram do futebol. O presidente do Palmeiras colocou dinheiro do bolso para contratar os melhores jogadores no mercado, algo que provavelmente ninguém da chapa irá fazer. E como já falei, a realidade econômica de São Paulo, uma cidade cinco vezes maior que Salvador, é totalmente diferente. É a cidade mais rica do Brasil. Seu programa de sócios excluiu o povo da arquibancada. Aqui, o Vitória não pode nem pensar em fazer o mesmo. Ainda mais quando a chapa justamente clama pelo “Vitória da Torcida”. Não caia nessa armadilha, Catharino. O mesmo serve pro Flamengo, o maior clube do país. Gerir o Flamengo é muito mais fácil que os times Nordestinos. Mais uma vez, entenda a sua realidade.

O que mais me preocupa, no entanto, é algo que não está tão claro. A gestão do grupo será centralizada no presidente ou é aberta? É preocupante imaginar que várias pessoas possam interferir nas decisões do clube. Por mais moderno que isso possa soar, é um risco grande. O meio do futebol é conhecido por suas rasteiras e politicagens. No primeiro racha o clube pode entrar num colapso. É importante sim, ter uma figura central. Ter os colaboradores, o braço direito, o confidente. Mas a figura do presidente não pode ser decorativa. Ele precisa assumir o papel de protagonista.

Esperamos que a gestão do Vitória seja bem sucedida. O futebol Baiano precisa voltar a ser protagonista. Hoje são coadjuvantes e ninguém pode negar. Que a diretoria entenda que o maior patrimônio do clube é a sua torcida. O Barradão precisa voltar a ser um lugar temido pelos adversários. A arenização dos estádios é super estimada em muitos casos. O Vitória precisa do povo empurrando o time. Precisa entender o seu lugar para poder crescer gradativamente, sem medo de assumir um papel de coadjuvante temporário. Até porque, Paulo Carneiro teve incríveis 391 votos. Um fracasso dessa gestão pode ressuscitar o que há de mais arcaico no futebol. Afinal, quem apostaria que Eurico Miranda voltaria ao poder no Vasco depois do discurso moderno de Roberto Dinamite?

Boa sorte, Vitória!

Twitter: @tedsimoes

One thought on “O Vitória elege seu novo presidente através da chapa “Vitória do Torcedor”. Mas o presidente tem que ser mesmo torcedor?”
  1. Jotapê 17 de dezembro de 2016 on 10:18 Responder

    Voto com o relator.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

>> <<