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Talvez Pep Guardiola seja o último romântico

Foto: https://www.mancity.com/

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Say that you want me,
All of the time,
Say that you need me,
Always be mine,
Cos we’ve got Guardiola,
We’ve got Guardiola…

O mundo do futebol parou nessa terça pra assistir um dos melhores jogos do ano. Após massacrar o Manchester City no Camp Nou, a equipe Catalã foi à chuvosa Manchester pra garantir a classificação antecipada no grupo C da Champions League, o torneio mais famoso entre clubes do mundo. O time Inglês nunca havia vencido o Barça em jogos oficiais até então. Eram 5 confrontos e 5 derrotas, com 5 gols de Messi. Uma freguesia que dava dó. Mas que se encerrou hoje, graças a uma atuação impecável do time Inglês que mora no coração deste que vos escreve.

“Mas porque o Manchester City, e não o United?”. Já cansei de ouvir essa pergunta. Ainda mais porque meu carinho pelo lado azul de Manchester vem desde 1997, muito antes do time virar a modinha que se transformou com a chegada da grana Árabe. Explico: Em 1996, ganhei um cd do Oasis, aquela famosa banda dos irmãos mais chatos da história do rock. À epoca, era a maior banda do mundo. Wonderwall, Don’t Look Back in Anger  Champagne Supernova fazem parte de qualquer coletânea das grandes canções dos anos 90. Os caras eram chatos, arrogantes, pedantes, mas eram bons demais. Eram craques.

Assim como todos que me perguntaram ao longo desses anos, eu também questionava a escolha de Liam e Noel Gallagher. Afinal o United era o maior time Inglês e um dos maiores do mundo. Na verdade, foi a primeira vez que eu descobri que havia outro Manchester. E que aqueles craques da música torciam pra um time sem craques, que penava na segunda divisão, chegando a cair pra terceirona.

De tanto ler entrevistas, vi que tinha algo a mais naquele Manchester. Sua torcida continuava junto do time, mesmo nos piores momentos. Lotava o Maine Road, antigo estádio do clube e cantava sem parar. Cantava as músicas do Oasis nos jogos, inventava canções pra seus jogadores, fazia a maior festa. Jamais abandonou o time nos piores momentos. Essa torcida, tão sem motivos pra comemorar, demonstrava o maior orgulho pelo seu time do coração. A grande magia do futebol. O time voltou à Premier League e vinha sendo discreta até a compra do Sheik Mansour, proprietário atual do time.

Tive o prazer de ser correspondente do time no Brasil. Escrevia pro site em Português até agosto desse ano, quando recebi o convite pra estrear o Blog do Ted pro A Tarde. Fiz amigos, conheci o clube e tenho o maior orgulho de ter feito parte dessa história.

Mas a história aqui é sobre Pep Guardiola.

Acompanhei de perto o entusiasmo do clube com a contratação de Pep como treinador do time. Era algo inacreditável pra qualquer torcedor. O maior treinador do mundo havia treinado Barcelona e Bayern Munique, dois clubes gigantescos em seus países. Não seria surpresa caso ele desembarcasse no rival, no Liverpool ou no Arsenal, clubes que tem uma história mais vencedora que o City. Era como um sonho de criança se realizando. Recebi inúmeras mensagens lá de Manchester no dia da confirmação. Era um misto de celebração, incredulidade e o velho sentimento de uma torcida acostumada a sofrer: “espero que ele não desista de última hora”.

Pep chegou. Muitos duvidavam da sua capacidade de treinar um time Inglês. Sem dúvidas, o City era o maior desafio da carreira do Catalão. Ele não teria Messi, muito menos a base da seleção Alemã. O City vinha de uma temporada irregular, conquistando a vaga pra Champions League com muito esforço. Alguns jogadores importantes do elenco envelheceram, outros se acomodaram. Mas o principal era implementar seu estilo de jogo num futebol tão diferente quanto o Inglês. Muitos achavam que era impossível. Que ele iria, em algum momento, sucumbir ao estilo Inglês pra garantir o resultado e continuar com a fama de treinador vencedor. Não foi bem assim.

Pra começar, Pep abriu mão de um ídolo da torcida. Disse que não jogaria com Joe Hart, um dos melhores goleiros do mundo, pois precisava de um goleiro que saísse jogando com os pés. Apesar de ser um fenômeno com as mãos, Joe sempre foi preguiçoso com os pés. Quando a bola era recuada, tome-lhe chutão. Não servia pra Pep, que foi buscar no Barcelona, seu antigo clube, o mediano Claudio Bravo. O Chileno não está nem entre os dez melhores do mundo, mas é um craque com os pés. Tem um percentual de acerto de passes maior que muito meio campista por aí. Pra piorar a situação, Pep abriu mão também de Yaya Touré, talvez o maior jogador da história do clube. Liberou o Francês Nasri na mesma leva. Chegou pra mudar a cara do time e impor de vez seus conceitos avançados de futebol.

Seu começo foi arrasador. Dez vitórias nos dez primeiros jogos, incluindo aí o clássico de Manchester, no estádio do United. O City chegou a ter 70% de posse de bola, outra marca registrada da sua filosofia de jogo. Aguero começou a fazer muitos gols, as novas contratações estavam mostrando serviço. Tudo ia dando certo, até que um simples empate virou o jogo.

A sequência perfeita parou num empate contra o Celtic, fora de casa. Depois, perdeu a invencibilidade diante do excelente Tottenham, em Londres. Em casa, um tropeço perante o Everton. A imprensa Inglesa começava discretamente a cornetar o Catalão. Até que veio o poderoso Barça, no Camp Nou.

O City fez os primeiros 15 minutos de forma surpreendente. Jogando em cima, marcação alta com pressão, toque de bola e troca de posições no ataque. Tudo que a cartilha Guardiola manda. Mas quando você tem Messi do outro lado, não pode ter nenhum deslize. E um escorregão de Fernandinho deixou o Argentino sozinho pra marcar. O jogo estava só começando. Mesmo atrás do placar, o time não se desesperou. Seguiu os ensinamentos do professor à risca. O City terminou o primeiro tempo jogando melhor e parecia que empataria a qualquer momento.

Mas aí vem o futebol, essa coisa tão apaixonante. Aos 8 minutos do segundo tempo, o lance capital do jogo. O homem que Pep trouxe pro lugar do ídolo da torcida falhou. E falhou feio. Saiu jogando errado e colocou a bola nos pés de Suarez, que tinha o gol livre à sua frente. Bravo impediu com as mãos fora da área e foi expulso. Com um a menos, o Barça não perdoou: 4-0 que poderia ter sido 6. A imprensa Inglesa (e a Brasileira também) não hesitou em chamar Pep de burro.

Na coletiva pós jogo, um famoso jornalista Inglês perguntou ironicamente se Pep já estava arrependido de liberar Joe Hart após a besteira feita por Bravo e se ele iria dar um puxão de orelha no goleiro Chileno. Sua resposta foi categórica: “não, eu dei os parabéns a ele por fazer o que sempre peço. Não quero que ele pare de fazer por um erro. Ele foi contratado para isso”. Outro jornalista Inglês insistiu: “Pep, se você tivesse sido mais cauteloso hoje, poderia ter vencido o jogo?”. Uma pausa longa e a resposta: “Não, eu prefiro morrer com meus conceitos”.

Ainda ontem escrevi sobre o dilema entre gostar de futebol ou de querer vencer a qualquer custo. No futebol Brasileiro, os técnicos vivem uma instabilidade muito maior que na Europa, é verdade. A sequência de seis jogos sem vencer que Pep viveu derrubaria muito técnico por aqui. Realmente não dá pra comparar. Na Europa o treinador tem muito mais tempo pra mostrar seu trabalho. Mas a falta de convicção dos técnicos Brasileiros também impedem uma confiança maior por parte da diretoria e da própria torcida. Infelizmente, os técnicos Brasileiros não gostam de futebol. Gostam de se manter no cargo o maior tempo possível.

Pep entrou pro jogo de ontem com suas convicções intactas. Nada de 3 volantes, time fechadinho esperando a oportunidade do contra-ataque. Foi pra cima do poderoso Barcelona. O filme parecia se repetir: Messi, sempre ele, abriu o placar. A torcida do City já esperava o pior, como é característica. Mas ainda no primeiro tempo, o time empatou. No  intervalo, Pep deve ter dado uma palestra daquelas. Nada de motivação e gritos, como faria Felipão. Ele apenas ratificou seus conceitos: pressão, paciência, toque de bola, construção das jogadas começando pelo goleiro e voilá! O City fez um segundo tempo majestoso. Virou o jogo rapidinho e poderia ter feito mais. O Barça, quem diria, apelou pra chutões e pontapés. Contra o City! Foi o maior sonho que qualquer torcedor azul de Manchester poderia imaginar.

Quem dera se tivéssemos alguns Guardiolas por aqui. É claro, ele é um daqueles gênios que aparecem a cada 30 anos. Mas que alguns técnicos tivessem a convicção dele e não abrissem mão dos seus conceitos por um mísero empate fora de casa. Que não adianta vencer um campeonato jogando bolas na área na cobrança de lateral ou precisando sempre do gênio do time. Que entendesse que é possível sim, jogar um belo futebol. Isso se estende também aos clubes. Arsene Wenger é outro grande exemplo de que a análise de desempenho é tão importante quanto a análise de resultados. Em 20 anos de Arsenal, ele não venceu tantos títulos. Mas nenhum time Inglês apresentou um futebol tão bonito como o Arsenal durante esse tempo. Ninguém vai conseguir vencer o tempo todo, mas os fãs do futebol sempre poderão apreciar sua equipe jogando um belo futebol.

Enquanto isso, a torcida do City segue embasbacada com o nível de futebol apresentado por Pep e seus Blue Caps. Não é a toa que a torcida já criou uma música pro Catalão, que deu pra ser ouvida ontem durante o jogo. Que aliás, vem sendo cantada em todos os jogos, dentro e fora de casa. A letra diz que “Diga que você me quer/o tempo todo/Diga que você precisa de mim/E sempre será meu/É que nós temos Guardiola”.

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