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Brasileiro gosta mesmo de futebol ou só gosta de ganhar?

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O Brasil é o país do futebol. Brasileiro gosta de samba, cerveja e futebol. Você certamente já ouviu ou leu essas frases muitas vezes. São tratadas como verdades absolutas em qualquer conversa sobre preferências nacionais. O país de Pelé, Garrincha, Romário e Ronaldo. Penta campeão mundial. São tantos argumentos que é difícil ser contrário à estas verdades. Não tem jeito: o Brasil é o país do futebol.

Permitam-me então discordar um pouco. Sem dúvidas o futebol Brasileiro passa pelo pior momento da sua história. Tudo bem que Tite começa a resgatar um pouco a confiança da seleção, que vem das piores humilhações. Mas os times Brasileiros praticam um péssimo futebol e não é de hoje.

Dos 4 postulantes ao título do campeonato Brasileiro, nenhum deles conseguiu manter um nível de regularidade no torneio. Em determinados momentos até chegaram a apresentar um bom futebol. Mas caem no pragmatismo de jogar pra vencer sempre, ao invés de melhorar a performance da equipe. Como disse o comentarista da ESPN Mauro Cézar Pereira, há uma diferença muito grande em analisar resultado e desempenho. Se os resultados dessas quatro equipes durante o certame são bons, o mesmo não se aplica à performance. São bons times em um campeonato medíocre.

De quem é a culpa? Os jogadores são realmente limitados, essa é a pior safra do futebol Brasileiro? Ou não temos mais treinadores capazes de desenvolver o bom futebol? Um pouco dos dois, talvez. Mas o problema é ainda maior. A culpa em grande parte pertence ao consumidor do futebol, que pouco parece se importar com a qualidade técnica. O torcedor quer ganhar.

Não sei em que ponto da história isso começa. Me arrisco a dizer que a seleção de 82 é a maior culpada disso tudo. Aquele time que encantou o mundo inteiro não venceu um título sequer. Nem uma copa América. Zico, Sócrates, Falcão e Telê Santana não conseguiram vencer num país onde pouco importa o que você faz: o importante é dizer que venceu.

Dá pra fazer um estudo sociológico de primeira sobre o assunto. O Brasileiro, desde sempre, é um povo acostumado a sofrer na vida. Desigualdade, corrupção e impunidade fazem parte do vocabulário diário da população. Sofremos com a síndrome do vira-lata: tudo lá fora presta e aqui não. Uma super valorização do que não é nossa realidade. Acabamos esquecendo disso e tratando pequenas conquistas como vitórias da vida. E nesses momentos, pouco importa se aquela seleção jogava o verdadeiro futebol arte. Ficou marcada como a geração perdedora por muita gente. Incluindo nessa leva o capitão da copa de 94 e ex treinador da seleção Dunga.

Depois de tantas derrotas com a magnífica geração de Zico, veio a copa de 94. Carlos Alberto Parreira, comandante daquele time, incorporou o pragmatismo de vez no time. 3 volantes, um sistema defensivo forte e muita confiança nos dois gênios do time, Bebeto e Romário. Deu certo. Ganhando por placares apertados, chegou à primeira final de copa do mundo decidida nos pênaltis. Precisou do erro do adversário pra garantir o título: o grito de campeão só saiu da garganta quando Roberto Baggio chutou a bola nas alturas. Mas isso pouco importava. O capitão Dunga levantou a taça xingando todos os críticos daquele time burocrático, que venceu uma copa na mediocridade dos adversários. O importante era vencer. Ele venceu e Zico não. Na lógica de Dunga, é o que importa. E virou verdade nacional.

Após o fenômeno ocorrido na copa de 94, passamos a valorizar treinadores pragmáticos. Felipão, Abel Braga, Joel Santana, Murici Ramalho, entre tantos outros, foram extremamente vitoriosos por onde passaram. O único que nadava contra a maré era justamente Vanderlei Luxemburgo. Foi o último treinador Brasileiro a montar times lendários no futebol nacional. O Palmeiras de 93/94 e 96, o Corinthians de 98, o Cruzeiro de 2003 e o Santos de 2004. Se colocarmos o Vasco de 97, treinado por Antônio Lopes nesse meio, temos aí os últimos grandes times nos últimos 20 anos. Muito pouco pra quem se acostumou a ver um campeonato com pelo menos 5 times que dava gosto de ver.

O resultado disso tudo acaba refletindo na arquibancada. Geralmente quem lidera o campeonato tem melhor média de público. O Palmeiras tem uma média de 31 mil pessoas por jogo, o que significa uma ocupação de 75% dos lugares. Na temporada passada, o Aston Villa foi o pior time do campeonato Inglês e teve uma ocupação de 78%. Maior que a do atual líder do Brasileiro. O São Paulo que vive má fase, maior clube vencedor do futebol Brasileiro ocupa a 14ª ocupação, com apenas 20 mil pessoas por jogo. E é a terceira maior torcida do país. A ocupação média na Premier League foi de 94%, enquanto na Alemanha a ocupação foi de incríveis 97%. No Brasil, pífios 40% de ocupação. Será que o Brasileiro gosta mais de futebol que Ingleses e Alemães?

Dá pra ir um pouco mais além. Nas olimpíadas, vimos o hype criado em cima da seleção feminina de futebol. As meninas venceram os dois primeiros jogos, enquanto os meninos empataram sem conseguir marcar um gol sequer. De repente, o Brasil era o país do futebol feminino. Marta era a nova heroína nacional e Neymar o pior vilão. A imagem daquele momento era só uma:

imagesDe repente, os especialistas em redes sociais vomitavam suas verdades: “um absurdo Neymar ganhar milhões pra fazer isso”. “Marta merece muito mais”. “O futebol feminino é orgulho nacional”. Entre tantas outras. Como modinha é bom e eu gosto, todo mundo riscou o nome do vilão pra colocar o da nova heroína Brasileira.

Mas futebol é uma coisa louca. A seleção feminina, talvez pressionada com tanta responsabilidade, sucumbiu a pressão. Não conseguiu vencer mais ninguém e foi eliminada. A masculina terminou campeã. E todo aquele apoio prometido da torcida, de ir a jogos do futebol feminino não aconteceu. Faça uma pesquisa simples: pergunte a 10 pessoas quaisquer se elas foram em algum jogo feminino depois das olimpíadas.

Vale lembrar que essa regra não se aplica apenas pro futebol. No final dos anos 90, um fenômeno chamado Gustavo Kuerten assombrou o circuito mundial de Tênis. Venceu 3 Roland Garros e foi número 1 do ranking. De repente, viramos o país do Tênis, mesmo sem saber quem foi Maria Esther Bueno. Os pais saíram comprando raquetes pra seus filhos e as escolinhas de Tênis faturavam em um mês o que faturavam em um ano. Depois das contusões e abandono precoce na carreira de Guga, as raquetes foram encostadas no depósito da família. Perdeu a graça: voltamos a ser o saco de pancadas no circuito.

Só um exemplo consegue ser mais incrível que o Tênis. Em 20 anos, o Brasil dominou a Fórmula 1. Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna fizeram o Brasileiro acordar cedo no domingo pra acompanhar monótonas corridas de carro. Monótonas por um sentido: cada um deles venceram mundiais com devidas emoções. As mesmas emoções que continuam acontecendo no circuito, mas entre Ingleses e Alemães. Se antes era legal ver Senna vencer uma corrida dando uma volta no segundo colocado, hoje é muito chato ver Hamilton fazer o  mesmo. Hoje a F1 resiste pelos fãs antigos, que pegaram a época de ouro e aprenderam a curtir o esporte, assim como no Tênis. Mas se não tem um Brasileiro com chances de vencer, pouco importa.

O futebol ainda resiste mais que esses esportes. A paixão do torcedor ainda leva muita gente aos estádios. O que espanta é olhar para um futuro que não reserva muita coisa boa.

Quando a Alemanha perdeu o título de 2002 para o Brasil, uma análise de performance foi feita. Mesmo tendo um resultado bom, chegando a final e perdendo pra um time muito melhor, como era o Brasil, a análise de resultado ficou em segundo plano. Os Alemães estavam envergonhados com o péssimo desempenho dentro de campo. Pragmatismo, pouca criatividade, dependência absurda dos mais habilidosos, um campeonato nacional de péssima qualidade… nada estava certo.

Foi aí que  parou tudo. Hora de refletir: o que queremos do futebol Alemão? Depender do acaso pra chegar a uma final de copa, levar o jogo aos pênaltis e torcer pra Ronaldo falhar? Não. Era hora de reiventar o futebol Alemão.

A federação Alemã criou uma força tarefa. Instituiu novas diretrizes para o desenvolvimento dos jovens, através de centros de excelência. Os técnicos também passaram por isso. Estudaram, entenderam que não dava pra seguir com conceitos da década de 70. Era hora de aperfeiçoar, entender que como tudo na vida, o futebol evoluiu.

O resultado disso está aí: uma liga nacional consolidada entre as três melhores do mundo, um projeto de longo prazo pra ser campeã do mundo, com um comandante que teve total liberdade pra não buscar resultados imediatos: perdeu a Euro 08 e 12 e a copa 10. Venceu a copa no Brasil humilhando o anfitrião. Já perdeu a Euro 16, mas mesmo assim teve seu contrato renovado até 2020. Tem a total confiança da direção. Nas análises de resultados, não teria chegado nem na copa do Brasil. Mas o desempenho tinha sido bom nas competições anteriores: deu a Alemanha padrão tático com uma equipe fortíssima. Vencer é detalhe. Tem dias que simplesmente a bola não entra. Ou que entra sete vezes.

Chegou a hora do torcedor Brasileiro largar a síndrome de vira-lata de lado. Do torcedor do Vitória comemorar que está na série A e a do Bahia tá na série B. Do torcedor do Bahia se contentar em ter dois títulos nacionais e seu rival não. É hora dos dois fazerem a auto crítica que dói, mas é verdade: hoje, Bahia e Vitória não são mais grandes clubes do futebol Brasileiro. Vivem na gangorra entre Série A e B. Precisam entender que a prioridade não é jogar na série A a qualquer custo.

Precisam entender o momento é planejar pra que em 5 anos eles estejam praticando um bom futebol, sem correr riscos  de cair novamente. Montam elencos pra um ano e quando o objetivo não é alcançado, a caça as bruxas tomam conta dos elencos. É preciso refletir essa prática, que afundou de vez os times baianos.

A principal arma é a torcida. Tem que cobrar dos dirigentes muito mais que ganhar. Ter paciência pra saber que as coisas não acontecem do dia pra noite. Preparar jovens e profissionais, ver o que anda rolando pelo mundo. O exemplo de Zé Ricardo no Flamengo devia servir de inspiração pra muitos clubes. Técnicos jovens, formados pelo clube, que buscam capacitações com quem realmente entende. Não ir passar uma semana pra tirar foto com Guardiola. Aqui pertinho na Argentina, temos um dos mais conceituados cursos de técnicos do mundo. Não é a toa que os técnicos Argentinos estão em alta nas principais ligas Europeias, apesar de Luxa discordar.

Precisamos quebrar essa verdade de que o que importa é vencer de meio a zero. A torcida tem que entender e o dirigente precisa ser claro. A medida é impopular no início, mas trabalhando certinho, podemos colher os frutos em breve. Tem que dar a cara e explicar a situação real do seu time.

E aí torcedor, fica a pergunta: você teria paciência em esperar um trabalho a longo prazo ou prefere ver seu time sendo campeão jogando um futebol medíocre pra poder tirar sarro com os rivais?

RAPIDINHAS:

O Vitória conseguiu um empate heróico no Maracanã contra o Fluminense. O time foi prejudicado pela arbitragem, que marcou um pênalti absurdo quando o time Baiano vencia por 1-0. A falta foi muito fora da área. Marinho empatou no final com um golaço. Gostaria de ver a coletiva do presidente do Flu, o senhor Peter Siemsen, pra reclamar do erro do juíz. No jogo contra o Flamengo, ele conseguiu até anular o jogo com seu teatro digno de broadway. Mas como dessa vez o erro foi a seu favor, ficou caladinho. No dos outros sempre é refresco, Peter. O Vitória agora está a 2 pontos do Inter e enfrenta o Atlético PR na próxima segunda, no Barradão. Vencer ou vencer. O Atlético tem a terceira pior campanha como visitante no campeonato.

O Bahia fez sua parte e venceu o Ceará em casa após tomar um susto no primeiro tempo. Graças a lambança de Sergio Soares e suas substituções, as mesmas que fazia no Bahia ano passado, o time de Gordiola virou pra alegria da torcida, que só não lotou o estádio devido à má vontade da Arena, que adora dificultar o acesso da torcida tricolor. O Bahia está a um ponto do G4 e enfrenta o Vila Nova na sexta, fora de casa. Tormento pra torcida, que se cansou da incompetência do time em conseguir o triunfo longe de Salvador.

4 thoughts on “Brasileiro gosta mesmo de futebol ou só gosta de ganhar?”
  1. Leandro Jesus 1 de novembro de 2016 on 13:20 Responder

    Infelizmente a torcida nao aguenta isso.

    O futebol é resultado aqui até mais que em outros locais.

    Qualquer dirigente é execrado mesmo estando fazendo boa administração e a imprensa, principalmente a baiana, contribui e muito com a propagação do quanto pior melhor, em uma ansia por cliques e audiencia e até mesmo a oportunidade estar no poder no futuro.

    E isso se reflete nas redes sociais e nas rodinhas de bar também.

  2. Ninna 2 de novembro de 2016 on 06:57 Responder

    Essa é uma ideia que defendo há tempos, Ted e Leandro.
    E sei que é uma postura, como torcedora, pouco comum.
    Hoje o que importa é vencer, mesmo jogando mal, e não é por paixão pelo clube para tirar sarro do torcedor rival. Se jogou bem mas, por essas coisas do futebol, a bola não entrou, não presta, porque aí o Whatsapp não vai parar de anunciar piadinhas. Todos só querem vencer e não sabem perder.
    Ninguém que curtir mais o Esporte pelo Esporte, que nos ensina muito sobre a Vida, nesse mundo de aparências e competições implacáveis.

    • Ninna 2 de novembro de 2016 on 07:00 Responder

      Corrigindo:” …e não é por paixão pelo clube, MAS para tirar sarro do torcedor rival.”

  3. Ricardo Longo 3 de novembro de 2016 on 14:47 Responder

    Apesar de concordar muito com o que é dito, me permita fazer uma correção: o Allianz Parque está com capacidade limitada em 32 mil pessoas desde meados do primeiro turno, quando o Palmeiras foi punido por aquela treta da torcida no jogo contra o Flamengo em Brasília. Olhando por esse lado, a média de 31 mil parece bem melhor. E pudera, os ingressos pro jogo contra o Inter, domingo que vem, esgotaram desde o fim de semana passado (e eu fiquei chupando dedo pela primeira vez esse ano).

    De qualquer maneira, o time é líder do brasileiro, o que meio que dá no mesmo com relação ao argumento do texto. Quero ver o que vai acontecer na próxima vez que o Palmeiras estiver na parte de baixo da tabela. Mas espero ter que aguardar muitos anos ainda pra poder tirar essas conclusões, pelo menos. hahahah

    Abraço!

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