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Graças a Deus, a fé ainda não garante nenhum resultado. É preciso competência.

Reprodução: Twitter

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Quantas vezes você já ouviu um jogador de futebol falar que com fé em Deus o seu time vai vencer uma partida? Ou que ele marcou um gol porque Deus colocou ele no lugar certo e na hora certa? Provavelmente inúmeras vezes. No Brasil, religiosidade e futebol andam de mãos dadas. Muito mais que em qualquer outro país no mundo. Não que a religiosidade seja marca exclusiva do Brasileiro. Mas desde que o fenômeno dos Atletas de Cristo assolou os gramados Brasileiros, muitas vezes parece que o futebol fica em segundo plano. E nada contra aqueles que colocam suas crenças à frente de tudo. Mas tudo que é exagerado ultrapassa certos limites.

A cena do fim de semana no futebol Brasileiro aconteceu aqui em Salvador, uma das cidades mais religiosas do país. A cidade das 365 igrejas, uma pra cada dia. Uma cidade onde muitas vezes diferentes religiões e crenças se misturam.

O Vitória enfrentava o Cruzeiro no Barradão, num confronto direto importantíssimo contra o rebaixamento. Com o placar adverso, o Leão teve mais uma penalidade à seu favor. O momento de comemoração deu lugar ao medo: Das últimas quatro penalidades a seu favor, o time perdeu três. Diego Renan, Kieza e Zé Love desperdiçaram suas chances. Pontos perdidos em duelos importantes que poderiam ter deixado o time numa situação mais confortável no campeonato, fora da zona de rebaixamento.

O escolhido da vez foi o Colombiano Cárdenas. Enquanto se preparava pra bater, uma cena chamou atenção: No lado direito Kieza se ajoelhava pra fazer uma oração. Em pleno jogo. A não ser que eu esteja muito enganado, acredito que o jogador pedia à Deus pra bolar entrar. O bom e velho “com fé em Deus, a bola vai entrar”.

Mas vamos voltar um pouco no tempo antes de continuar.

Os atletas de Cristo surgiram no final da década de 70. Um dos pioneiros do grupo foi o ex-goleiro do Atlético-MG João Leite, que hoje disputa a prefeitura de Belo Horizonte com Alexandre Kalil, ex-presidente do Galo. Foi o primeiro jogador a pregar dentro dos gramados, ao entrar com uma camisa com os dizeres “Cristo Salva”. Era conhecido por distribuir bíblias pros jogadores. Se declarava “Goleiro de Deus”, fato que irritou profundamente à CBF na época, que nada pode fazer. Hoje em dia a FIFA proíbe qualquer jogador de se manifestar religiosamente nos gramados.

A irritação da CBF com Leite, que chegou a defender a seleção por cinco jogos, não foi o único problema. Na copa de 2010, o grupo dos atletas de Cristo chamou atenção à cúpula da entidade ao realizar inúmeros cultos na concentração. O então auxiliar técnico Jorginho era um dos entusiastas, junto com Kaká. A grande estrela da seleção naquela copa nunca escondeu sua religiosidade. E foi alvo de uma grande polêmica ao atuar machucado na copa. Segundo informações extra-oficiais, Kaká se recusava a fazer uma cirurgia necessária no púbis acreditando que sua fé superaria as dores. Kaká sofreu um acidente quando criança, afetando sua coluna. Médicos diziam que ele mal poderia andar. Se apegou na religião e acabou virando melhor do mundo.

Desde a copa de 2010, a CBF proibiu cultos na concentração da seleção. O que não impede ainda que Neymar, a cada conquista com a seleção, ostente sua faixa “100% Jesus” na testa. Fato que irrita profundamente a entidade. Mas ninguém gosta de contrariar Neymar na seleção…

Voltemos ao Barradão.

Não há problema nenhum em Kieza ter sua fé em qualquer religião. Mas num momento tão difícil pro time, é hora de deixar as crenças de lado. Trabalhar, treinar, melhorar o desempenho. Do mesmo jeito que ele pediu à Deus pro pênalti entrar, o excelente goleiro cruzeirense Rafael também deve ter pedido o contrário. A diferença é que ele não esqueceu do jogo: se concentrou e fez seu trabalho. Defendeu a penalidade máxima, a quarta desperdiçada pelo Vitória em momentos decisivos.

Mas como Deus é bom – já diriam inúmeros jogadores – Ele deu mais uma chance à Kieza. A bola foi espalmada justamente pra seu lado, onde não tinha absolutamente nenhum jogador da equipe mineira. Mas o camisa 9 do Vitória estava tão concentrado, com os olhos fechados, que esqueceu da possibilidade do rebote, do gol, da torcida rubro negra e do próprio clube. Como na canção de Gilberto Gil: “Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós”.

O lance inusitado escancara uma triste realidade de alguns atletas de Cristo. A ideia de que na base da fé as conquistas aparecerão. Não é bem assim. É preciso respeitar a fé alheia também. Porque Deus favoreceria um lado e prejudicaria o outro, se Seu amor é igual com todos?

A torcida do Vitória já percebe que nesse momento delicado, rezar não adianta mais. O discurso “com fé em Deus” não está fazendo a bola entrar nesse martírio que se tornou bater um pênalti com a camisa rubro-negra. É preciso deixar as crenças de lado um pouquinho e treinar mais. A fé pode – e deve – andar ao lado da competência. Mas a competência é resultado de muita dedicação, trabalho e esforço. Aos incompetentes, a fé as vezes até ajuda. Kieza pode se prender a isso com outra canção do genial Gilberto Gil, caso tenha preguiça em treinar pênaltis com seus companheiros: “Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá“. Quem sabe no próximo pênalti, somente na base da fé, a bola finalmente entre.

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